Mentiras contadas a embaixadores são aceno de Bolsonaro para refutar resultado em outubro

Reportagem publicada originalmente no Jornal da Metropole em 21 de julho de 2022

Sem exageros, é possível cravar que o mundo assistiu a um espetáculo do absurdo protagonizado por um presidente possuído por uma sanha golpista.

Jair Bolsonaro (PL) conseguiu a proeza de, simultaneamente, macular o Palácio da Alvorada e rebaixar a imagem do Brasil no exterior, na reunião do último dia 18, na qual convocou embaixadores de diversas nações soberanas para propagar mentiras sobre o sistema eleitoral do próprio país que comanda.

Desde 1996 (de forma experimental) e a partir de 2000 (definitivamente), o Brasil adota o sistema de urnas eletrônicas, sem um único caso comprovado de fraude de adulteração de resultado. O próprio presidente foi eleito cinco vezes nesta modalidade, incluindo a última, quando venceu a disputa para a Presidência da República.

Bolsonaro atacou ainda o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e investiu contra seu principal adversário, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), líder das pesquisas de intenção de voto até aqui.

Para o jornalista e consultor político Thomas Traumann, ouvido pela Rádio Metropole, a intenção era preparar um discurso para reverberar entre os chefes de estado de todo mundo. A tática, entretanto, falhou de forma grotesca.

“O que o presidente Bolsonaro queria com essa reunião? Ele queria que os embaixadores já ficassem avisados, e avisassem aos seus chefes de estado, que poderá haver uma contestação judicial do resultado eleitoral no Brasil. Só que deu tudo errado. O retorno que o presidente esperava não aconteceu. O embaixador da Suíça soltou uma notinha no Twitter dizendo que acreditava no sistema eleitoral brasileiro. O embaixador americano soltou uma nota muito dura dizendo que acredita no sistema brasileiro. Ou seja, o resultado foi amplamente negativo”, analisou.

Traumann também considera que o presidente avança sobre os limites legais dos demais poderes por falta de resistência das instituições da democracia brasileira.

“Há muitos meses o presidente tem passado do limite e nada é feito. Isso é uma leniência, tanto da Procuradoria Geral da República, que parou de existir, quanto na vontade dos deputados federais. Como nada é feito, o presidente vai avançando. Ele tá chamando uma manifestação gigante em 7  de setembro e ninguém sabe o que vai acontecer. Ele tá pressionando de tal forma que agora estamos vivendo esse risco de um golpe”, diz.

 

RESPOSTA

Os principais jornais do mundo fizeram duras críticas ao presidente brasileiro. O norte-americano “The New York Times” comparou o discurso de Bolsonaro a estratégia adotada pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, antes das eleições de 2020 do país.

“Como Trump, Bolsonaro parecia estar desacreditando a votação antes que ela acontecesse, em um suposto esforço para aumentar a confiabilidade e a transparência”, analisou o jornal.

A publicação relatou ainda que os diplomatas ficaram “abalados” com as declarações do presidente brasileiro. “Uma possível prévia de sua estratégia para uma eleição que está a 75 dias de distância e que as pesquisas preveem que ele perderá em uma vitória esmagadora”.

O britânico “Guardian” destacou que as falas “infundadas” de Bolsonaro sobre a integridade das urnas causaram “ultraje” entre autoridades eleitorais e políticos experientes. O discurso, disse a publicação, aumentou temores de que o “líder populista da extrema direita” desacredite as próximas eleições presidenciais.

Apesar da repulsa internacional, o episódio ainda é visto com muita preocupação dentro do país. Em vídeo, o âncora da Rádio Metropole, Mário Kertész, analisou que Bolsonaro vem ganhando terreno apostando na desmoralização das instituições brasileiras.

“Há muito tempo que ele vem avançando na desmoralização das instituições brasileiros no sentido de preparar um golpe, sentindo pelas pesquisas, e por tudo que está acontecendo no Brasil, que as chances das suas eleições são muito baixas. Ele começa a preparar, cada vez mais para, ou adiar, ou anular, ou acabar com as eleições”, disse.

Kertész fez ainda um apelo “ao povo brasileiro” para não aceitar esse tipo de ataque. “A democracia brasileira não pode ser derrubada por um tipo de presidente que, cercado de militares, deseja esse tipo de atitude. Ontem foi uma data de infâmia para nós, democratas. O perigo é grande”, alertou.

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